Meus Passos para a Inclusão

Atenção, abrir em uma nova janela. PDFE-mail

Minha trajetória na Educação inicia em 1983, quando comecei a dar aulas na rede Municipal do Rio de Janeiro, especificamente em uma escola em que havia um grupo de crianças excluídas socialmente.

Compreendi que era preciso, a priori, criar meios de socialização para em seguida me preocupar com o desenvolvimento cognitivo daquelas crianças. Passei então a propor jogos - de construção, simbólicos e de regras - por meio dos quais as crianças pudessem construir relações de interdependência social e afetiva. Aos poucos, consegui "incluí-los" tanto na classe, quanto na escola. Nossa turma passou a ser aquela que mais se desenvolvia em termos qualitativos de aprendizagem. Naquele ano, todas as crianças daquela sala, que tinham entre seis e sete anos, aprenderam a ler e escrever.
Nesta perspectiva, passei a desenvolver projetos, sobretudo na área alfabetização com base na psicogênese da leitura e da escrita, desenvolvida por Emilia Ferreiro e Ana Teberosky, em todas as escolas em que trabalhei.
Em virtude da observação e constatação de que as escolas, em geral, não têm projetos flexíveis que "incluam" todas as crianças, em 1994, fundei a Escola Viva, em Caucaia do Alto, Cotia. Com base na teoria construtivista, iniciamos um trabalho que, a princípio, assustava as pessoas. As crianças sentavam-se em grupos, se envolviam diariamente em jogos e outras atividades lúdicas. Não usávamos livros didáticos e, sim, livros "de verdade". Para aprender a ler, cada turminha escolhia um conto de fada para ser o suporte de leitura. A escrita era valorizada a partir das hipóteses das próprias crianças.
Os alunos maiores, já naquela época, eram mobilizados em torno de projetos multidisciplinares que envolviam diversos campos do conhecimento, desde a culinária até a álgebra, gramática etc. Para reflexão, sempre tivemos aulas de filosofia; para conhecer o mundo, incentivamos efetivamente à leitura.
Em 1995, fui levada por uma amiga à APAE central, na Vila Mariana, para assistir a uma palestra ministrada pelo então diretor daquela instituição. Pelo caminho fui pensando o que poderia eu aprender naquele lugar. Isto porque, apesar de toda minha visão diferenciada da educação, eu também pensava que portador de deficiência precisava de "cuidados e meios especiais", principalmente de uma escola especial.
A primeira fala do palestrante já me causou um grande impacto. Disse ele: Gostaria de acabar com todas as APAEs. É claro que ao longo da palestra pude compreender do que ele estava falando: da inclusão. Saí daquele lugar meio tonta. Recordo-me de naquela noite ter perdido algumas horas de sono pensando naquela idéia que me parecia tão óbvia, ou seja, de que o deficiente deve ser incluído, sem restrições, no meio social, desde o seu nascimento.
Por acaso, uma semana depois fui procurada por uma mãe de uma menina de sete anos portadora de Síndrome de Down. Pensei que aquela seria uma boa oportunidade para iniciar a inclusão em nossa escola. Antes que a criança fosse matriculada, reuni todos os professores e dissertei sobre a tese da inclusão. Para todos, isso não foi novidade em face de já estarem envolvidos em um processo educativo que respeitava as diferenças entre os alunos. Mesmo assim vieram as perguntas: na prática, como lidar com essas crianças tão diferentes? E os pais dos não portadores, como irão encaram esta situação?
O primeiro passo foi justamente reunir a comunidade e fazer uma reflexão sobre o assunto. Para nossa surpresa, todos os pais concordaram que esta seria uma boa oportunidade para o exercício e o aprendizado de novos conhecimentos: ser tolerante, respeitar as diferenças, desmistificar a deficiência como entrave de desenvolvimento etc.
O segundo passo constituiu-se em debruçarmo-nos sobre estudos centrados no sócio-interacionismo, em cujo escopo teórico encontram-se as respostas para a importância da vida em grupo. Nesta perspectiva, que incluía todos os funcionários, professores e pais da escola, passamos a viver, na prática, a inclusão.
Tivemos, sobretudo, que desfazer alguns mitos como, por exemplo, de que o profissional que lida com o deficiente precisa ter uma formação especial; que o deficiente na classe comum atrapalha o desenvolvimento dos outros alunos; que ele precisa de atenção especial. Em relação a esse último mito, assinalamos que todos nós, em determinados momentos precisamos de atenção especial.
Certamente, durante estes doze anos, enfrentamos situações as mais diversas possíveis. Tivemos que lutar contra alguns preceitos, primeiramente, vindos dos próprios pais dos portadores de deficiência. Da super proteção a um certo abandono, vimos lidando com situações que ainda evidenciam a incompreensão, ou seja, a falta de conhecimento sobre o assunto, por parte a mesmo de profissionais da área: psicólogos, fonoaudiólogos, psicopedagogos etc. que ainda crêem que a educação destas crianças deve ser diferenciada.
Contudo, nosso trabalho vem, a cada dia, se tornando mais fácil e prazeroso. Apesar do tempo que vimos trabalhando nesta direção, ainda me emociono ao assistir a uma criança portadora de Síndrome de Down, acometida por afasia, dizer, lá do jeito dela, por meio de gestos e sussurros,
uma poesia sobre a infância. Mais emocionante ainda é perceber o interesse de todas as crianças em assistir e aplaudir o colega.
Como disse antes, nestes doze anos, tivemos e ainda temos o privilégio de compartilhar a educação e o desenvolvimento de crianças e jovens portadores de as mais diversas deficiências. Isso sem falar daqueles que mesmo não portadores de deficiência, chegam à escola cheio de rótulos - hiperativos, dislexos, preguiçosos, portadores de déficit de atenção etc.- colocados tanto por profissionais como pela própria escola.
Por se tratar de uma nova perspectiva, a inclusão ainda é algo desconhecido e que causa um certo medo. É preciso, portanto, que seja difundida em todas as dimensões da sociedade como sendo algo benéfico a todos, portadores e não portadores de deficiência.
Nós da Escola Viva, em face de nossa larga experiência, estamos à disposição para ajudar aqueles que pretendam ingressar nesta empreitada.
Rossana Ramos
Diretora
Textos tirados da Revista Nova Escola da edição 182 - mai/2005
http://revistaescola.abril.com.br

Já nesta ocasião, pude perceber que os pressupostos teóricos da escola tradicional não dariam conta de desenvolver qualquer tipo de trabalho com aquele grupo. Por isso, passei a buscar algo que pudesse auxiliar-me naquela empreitada. Afortunadamente, me foi sugerido por uma colega que lesse a obra de Jean Piaget. Comecei pelo que pensei ser mais fácil: a teoria sobre o desenvolvimento humano descrita pelo autor. Embora, não tenha sido mais fácil como imaginava, aos poucos, fui compreendendo a tese defendida pelas ciências cognitivas, sobretudo pela teoria construtivista que trata da epistemologia genética e do sócio-interacionismo.

 

Viviam em uma espécie de orfanato mantido pelos traficantes da favela da Rocinha. A maioria havia perdido os pais em conflitos entre polícia e bandidos. Além da carência material, essas crianças sofriam também da carência afetiva.

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